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Reflexões sobre a prevenção do câncer do colo uterino em gestantes


O câncer do colo uterino é a segunda neoplasia que mais acomete as mulheres no mundo. Em 2007, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que 260.000 óbitos de mulheres no mundo diagnosticadas com essa doença, sendo que cerca de 95% dos casos ocorreriam nos países em desenvolvimento (GONÇALVES et al, 2011).

Como uma das principais causas de mortalidade no sexo feminino, o câncer de colo uterino constitui um problema de saúde pública no Brasil. A literatura evidencia a prevenção por meio de ações de educação em saúde e conscientização da população (Thum et al., 2008).  Além da prevenção, o que é extremamente necessário é a capacidade de ter acesso ao diagnóstico precoce, que no caso é realizado comumente na atenção primária em saúde pelo exame colpocitopatológico, mais conhecido como preventivo ou papanicolau.

Várias estratégias devem ser adotadas, principalmente pelas equipes de Saúde da Família, através de territorialização, cadastramento das usuárias na faixa etária preconizada pelo Ministério da Saúde, oferta de acesso com horários diferenciados de acordo com a demanda e necessidade da população, porém tudo isso fica prejudicado se não existir a capacidade de executar o serviço/procedimento proposto.

Exame citopatológico em gestantes

DE SANTANA et al, 2013 colocam que 
O exame citopatológico (Papanicolaou) é o exame preventivo do câncer do colo do útero e rastreamento de suas lesões precursoras, devendo ser realizado uma vez por ano e, após dois exames anuais consecutivos negativos, a cada três anos. Gestantes têm o mesmo risco que não gestantes de apresentarem câncer do colo do útero.
Conforme publicado pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA), no caso de pacientes grávidas, a coleta endocervical não é contraindicada, mas deve ser realizada de maneira cuidadosa e com uma correta explicação do procedimento e do pequeno sangramento que pode ocorrer após o procedimento. Como existe uma eversão fisiológica da junção escamocolunar do colo do útero durante a gravidez, a realização exclusiva da coleta ectocervical na grande maioria destes casos fornece um esfregaço satisfatório para análise laboratorial (DE SANTANA et al, 2013).

A gestação representa uma excelente oportunidade para prevenção do câncer do colo uterino, já que faz parte da rotina de pré-natal preconizada pelo Ministério da Saúde. A inspeção do colo uterino e a coleta de exame citopatólogico (quando o último exame tiver sido realizado há 36 meses ou mais) e a palpação bimanual devem ocorrer durante a assistência pré-natal. Outro benefício é o tratamento precoce de possíveis infecções sexualmente transmissíveis (IST).

Pré-natal como oportunidade de prevenção

Embora a existência do pré-natal com acesso universal em muitos locais e em quantidade de consultas dentro do padrão, isso não garante cuidados qualitativos adequados, visto que muitos profissionais da saúde deixam de aproveitar o momento da consulta pré-natal para realizar a coleta do exame citopatológico, perdendo essa oportunidade, talvez a única, de realizar a prevenção
No cotidiano dos serviços de atenção primária à saúde é possível constatar a presença diária de mulheres no período gestacional que, via de regra, buscam as unidades de saúde apenas para o acompanhamento pré-natal. A vivência profissional neste ambiente possibilitou a constatação de que, de maneira geral, tal oportunidade não vem sendo aproveitada para a realização do exame de Colpocitologia Oncótica (CCO), apesar da indicação do Ministério da Saúde de realização da coleta ectocervical em qualquer trimestre da gestação. LIMA et al, 2009
Uma questão a ser pensada é como introduzir formas de orientação e de novas estratégias pedagógicas com o objetivo de possibilitar às gestantes melhor captação e fixação dos conhecimentos, a fim de torná-las co-partícipes das ações de saúde. As gestantes quando bem orientadas e com conhecimentos dos seus direitos podem auxiliar a gestão da clínica, no tocante à garantia de acesso à realização de todos os exames e procedimentos necessários FERNANDES et al, 2002).

As gestantes realizam o exame papanicolau durante a gravidez, na atenção primária ou no serviço especializado?
Uma observação a se notar é que pode ser que se o exame foi solicitado e até mesmo realizado, porém se não for registrado, fica difícil a identificação e formulação de estratégias para intervir em determinadas situações e casos específicos para contribuir ainda mais com a redução da morbimortalidade. Sendo assim, o registro é essencial para a fidedignidade dos dados.


Morbimortalidade materna e desafios para os profissionais

A taxa de mortalidade materna reduziu em número significativo nos últimos anos, porém no Brasil ainda existem muitos casos e situações em que determinados procedimentos poderiam ser evitados e assim impossibilitar complicações e até mesmo óbitos. Essa situação decorre de diversos fatores, principalmente: falta de conhecimento das gestantes, conscientização e sensibilização destas para o pré-natal. Outro fator importante também se refere ao perfil de profissionais e serviços de saúde, que podem exercer grande influência e conduzir práticas com déficits na humanização. Com esse quadro, grande é o desafio para a mudança de cultura, compartilhamento de responsabilidades nos setores público e privado para que ocorram avanços e mudanças no cenário que coloca em risco a saúde das gestantes no país.

Alguns estudos apontam sobre as características das mulheres, dos serviços de saúde, dos profissionais, mas não são relatados os aspectos referentes ao processo de trabalho. Sendo assim, é importante destacar como se dá essa lógica para a operacionalização da atenção à saúde da mulher. Entender pontos como financiamento, convênios, planejamento e avaliação é essencial nessa temática.

O conhecimento da situação de saúde do município é de grande magnitude para os processos de monitorização e avaliação, ou seja, possibilitam o diagnóstico e estabelecimento de políticas específicas e a formulação de planos (estratégias) para a prestação de serviços com maior efetividade na transformação da saúde do município, desde a educação em saúde até a assistência em saúde da mulher.

É necessário conhecer a realidade do território, quais suas características em relação à realização do procedimento de coleta de material cérvico-uterino para exame citopatológico na atenção pré-natal e a situação de execução desses exames preventivos

As possíveis dificuldades existentes (falta de conhecimento, resistência da gestante e/ou profissional, entre outras) podem apontar para a necessidade de uma melhor integração da gestão e serviços (assistência), sendo que os problemas operacionais e os de caráter profissional podem reduzir a complexidade, a partir da implementação de estratégias para que o programa de controle do câncer esteja inserido num contexto de compreensão por todos e assim que os recursos necessários estejam disponíveis para atender a demanda com qualidade. Esse questionamento sobre a realização do preventivo serve como sinalizador para estudos, pesquisas e espaços de discussão da realidade e seus contextos, bem como estratégias de intervenção.

REFERÊNCIAS

DE SANTANA, Janne Eyre Oliveira; SANTOS, Mônica; MACHADO, Izadora Lisbôa Dantas. A Importância da Realização do Papanicolaou em Gestantes: Uma Revisão de Literatura. Caderno de Graduação-Ciências Biológicas e da Saúde-UNIT, v. 1, n. 3, p. 39-48, 2013.

FERNANDES, Rosa Aurea Quintella; NARCHI, Nádia Zanon. Conhecimento de gestantes de uma comunidade carente sobre os exames de detecção precoce do câncer cérvico-uterino e de mama. Rev Bras Cancerol, v. 48, n. 2, p. 223-30, 2002.

GONÇALVES, Carla Vitola et al. Perdas de oportunidades na prevenção do câncer de colo uterino durante o pré-natal Missed opportunities for cervical cancer prevention during prenatal care. Ciência & Saúde Coletiva, v. 16, n. 5, p. 2501-2510, 2011.

LIMA, Aline Pinto de et al. Câncer de mama e de colo uterino no períodogestacional: uma revisão de literatura. Ciênc. cuid. saúde, v. 8, n. 4, p. 699-706, 2009.

THUM, Magali et al. Câncer de colo uterino: percepção das mulheres sobre prevenção. Ciênc. cuid. saúde, v. 7, n. 4, p. 509-516, 2008.


Contribuiu com este Artigo:

Guilherme de Andrade Ruela
Graduação em Enfermagem pela Universidade Vale do Rio Doce (UNIVALE). Especialização em Micropolítica da Gestão e Trabalho em Saúde (Universidade Federal Fluminense - UFF); Gestão Microrregional de Saúde (SENAC-MG); Enfermagem do Trabalho (Faculdade Integradas de Jacarepaguá - FIJ); Gestão e Logística Hospitalar e Gestão de Programas Saúde da Família (Faculdade do Noroeste de Minas - FINOM). Aperfeiçoamento em Qualificação de Gestores do SUS; Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa e Impactos da Violência na Saúde (Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca - ENSP/Fiocruz).

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