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ENTEROPATIAS: relação entre a existência e a prevalência dessas doenças com a carência de vitamina A


Pobreza, carência de informações, orientações, e avitaminoses podem influenciar na epidemiologia das enteropatias de muitas maneiras. Favorece a presença de reservatórios animais, garante uma transmissão contínua, facilita formas atípicas de espalhar o agente infeccioso aumentando as chances de retro infecção e reinfecção.  

Continuando isso resulta em uma preeminência extremamente elevada e intensidade de infestação e morbidade expressiva. O estigma, a falta de cuidados de saúde e possíveis dificuldades de acesso, deficiências nutricionais parece ser as razões pelas quais doenças infecto parasitarias continuam sua progressão e o tratamento inexiste ou é precário.

Visto sob essa ótica torna-se inevitável a mudança de paradigmas, de um olhar e de um novo “agir” no enfrentamento dos desafios. Desigualdade e negligência parecem ser as principais forças motrizes que insistem em manter a carga das doenças enteroparasitárias em um nível insuportavelmente alto. 


Nesse sentido, partes interessadas na área da saúde e boa vontade política influencia nas decisões, quando deverão reconhecer que as infecções e processos diarréicos, tornam-se debilitantes e merecem muito mais atenção dos gestores e profissionais de saúde. 

Entendemos que a urbanização descontrolada em curso em muitos países em desenvolvimento empurra as comunidades cada vez mais para as periferias e favelas onde sobrevivem amontoados cultivando um ecossistema próprio onde as doenças parasitárias mantêm altos indicadores.  


Desta forma o estudo da correlação entre as parasitoses e a deficiência da vitamina A assume particular importância nas grandes áreas endêmicas de parasitoses que se concentram em regiões tropicais, onde, concomitantemente, é alta a prevalência de má nutrição. (SOUZA e VILAS BOAS).

Nesse contexto de acordo com Neves, et al, parasitismo é a associação entre seres vivos, na qual existe unilateralidade de benefícios, ou seja o hospedeiro é espoliado pelo parasito, pois fornece alimento e abrigo para este.

No que se refere, o parasitismo compreende uma relação ecológica com dois indivíduos de espécies diferentes, onde o ambiente do parasita é outra vida outro organismo, e por esta razão, a Parasitologia é um campo ativo de estudo em que os avanços na biotecnologia aumentaram as expectativas para o desenvolvimento de novos medicamentos, vacinas e outras medidas de controle. 

No entanto, essas expectativas são atenuadas pela inerente complexidade dos parasitas e suas relações com o hospedeiro, o entrincheiramento entre vetores em seus ambientes, e os vastos problemas socioeconômicos.

Sendo assim a desnutrição ou mais corretamente as deficiências nutricionais, ou modalidades de desnutrição, são doenças que decorrem do aporte alimentar insuficiente em energia e nutrientes ou, ainda, com alguma frequência, do inadequado aproveitamento biológico dos alimentos ingeridos geralmente motiva do pela presença de doenças, em particular doenças infecciosas.  (MONTEIRO).

No que se refere cabe ressaltar que a Vigilância em Saúde do Trabalhador compõe um conjunto de práticas sanitárias, articuladas supra setorialmente, cuja especificidade está centrada na relação da saúde com o ambiente e os processos de trabalho e nesta com a assistência, calcado nos princípios da vigilância em saúde, para a melhoria das condições de vida e saúde da população. (BRASIL).



Por outro lado estudos com pré-escolares na região amazônica, onde foram obtidas amostras séricas e coprológicas, além das informações sobre os hábitos alimentares, constatou a relação entre os níveis de infestação por parasitas, e hipovitaminose A sérica, já que a falta de fontes alimentares  contendo vitamina A estava presente. (MARINHO e RONCADA).

Para continuar as parasitoses em populações onde a ingestão de vitamina A é insuficiente, favorece definitivamente a correlação entre as parasitoses e avitaminoses assumindo particular importância nas grandes áreas endêmicas em regiões tropicais onde, simultaneamente, o índice de má nutrição e hábitos de higiene, é alto principalmente se a área é desprovida de saneamento.

Por outro lado em relação à vitamina D, suas propriedades imunomoduladoras podem influenciar a suscetibilidade à infecção. Alguns estudos detectaram casos de infecção por Giardia lamblia devido à deficiência dessa vitamina e diarréia recorrente foi associada à diminuição do nível sérico de vitamina D na pré-escola e na idade escolar. (ABED et al).

Dando continuidade o Brasil possui uma grande diversidade geográfica, climática, econômica e social, diversidade essa que pode ser refletida na grande variedade de enteropatógenos causadores de diarréia. (SCHNACK et al).

Nesta situação as infecções mais comuns são causadas pelas espécies: Ascaris lumbricóides; Ancylostoma duodenale; Necator americanus; Schistosoma mansoni; Strongyloides stercoralis; Trichuris trichiura; Taenia solium e Taenia saginata; e Hymenolepis diminuta que podem estar associadas a fator sócio econômico, ambiental e cultural proporcionando condições favoráveis à disseminação. (PIRES).

Portanto os parasitas também estão associados à diarréias e anemias devido à carência de vitamina A, e a carência também de Fe demonstrando a relação entre as enteroparasitoses e a ocorrência de desnutrição. (GILGEN, TAYLOR e ROSETA).

A importância desse raciocínio leva à certeza que a vitamina A é um micronutriente essencial à manutenção das funções fisiológicas normais do organismo até porque no seu amplo espectro de atuação, só parcialmente conhecido, ressaltam-se as funções ligadas ao ciclo visual, à integridade das membranas biológicas, à manutenção e diferenciação epitelial, bem como à formação de glicoproteínas, à produção de muco e à resistência contra as infecções, mediada pela ação moduladora da resposta imune. (DINIZ e SANTOS).

Vale lembrar que a deficiência de vitamina A está associada à redução da atividade de células NK e a habilidade de células esplênicas em produzir Interferon (proteína produzida pelas leucócitos e fibroblastos para interferir na replicação de fungos, vírus, bactérias)  após o estímulo de mitógenos (substancia que estimula a proliferação celular). Adicionalmente, essa deficiência associa-se a redução da produção de anticorpos contra polissacarídeos bacterianos e antígenos protéicos em estudos experimentais, e à dificuldade no controle da infecção por mico bacteriose e esquistossomose em seres humanos. (SOUZA e VILLAS BOAS).

Nesse sentido, entende-se que em um país, onde às crianças constituem o principal grupo de risco, as causas de anemia de origem dietética são preponderantes em  relação às causadas por parasitoses. (SIGULEM et al).

Sabe-se da documentada ação da vitamina A e, notoriamente na gestação, essa vitamina é importante para a reprodução, crescimento e desenvolvimento fetal, constituição da reserva hepática fetal e para o crescimento tissular materno. A concentração tissular adequada de vitamina A é sabido trazer benefícios para a função feto-placentário pelo aumento dos níveis de progesterona. (BEITUNE et al).

A saber, novo relatório da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), aponta que a má nutrição custa ao mundo cerca de US$ 500 (ou R$ 1 mil) por indivíduo ou US$ 3,5 trilhões (R$ 7 trilhões) por ano, o equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB) da Alemanha, a maior economia da Europa. A FAO estima que 2 bilhões de pessoas tenham deficiências de um ou mais micronutrientes, enquanto 1,4 bilhões estão com sobrepeso. (RADIS).

Além disso, 25% de todas as crianças abaixo de cinco anos sofrem com baixa estatura e outras 31% têm deficiência de vitamina A. O Brasil ainda tem a maior proporção de menores de cinco anos anêmicos na região (54,9% do total) (RADIS).

Outro destaque significativo, é que de acordo com a Carta da Promoção da Saúde (Declaração de Sundsvall) os temas de saúde, ambiente e desenvolvimento humano não podem estar separados. Desenvolvimento implica na melhoria da qualidade de vida e saúde, ao mesmo tempo em que na preservação da sustentabilidade do meio ambiente (BRASIL).

Tendo em vista essa afirmação e no  âmbito da saúde coletiva e ainda segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) saúde ambiental é o campo de atuação da saúde pública que se ocupa das formas de vida, das substâncias e das condições em torno do ser humano, que podem exercer alguma influência sobre a sua saúde e o seu bem estar. (BRASIL).

A Carta de Ottawa também definiu como uma de suas linhas de atuação a criação de ambientes favoráveis à saúde, os chamados ambientes saudáveis. Inúmeras  conferencias internacionais sobre o tema se sucederam desde então e vêm influenciando políticas de saúde coletiva dos mais diversos países. (Brasil).



Acredita-se que a maioria dos países em desenvolvimento tem as estatísticas de saúde nacionais rudimentares, e, além disso, a carência nutricional energético-protéica e de micronutrientes deficientes, diminui a resistência à infecção, contribuindo para muitas mortes. (LONG, et al).

Tendo em vista essa afirmação lembramos que as parasitoses, em geral, são transmitidas por contato direto fecal-oral ou contaminação de alimentos e água em ambientes com condições sanitárias inadequadas. A população de baixa renda, que reside em ambientes de alta contaminação, com aglomeração intensa de pessoas, sem acesso a saneamento e coleta do lixo, tem um maior risco de se infectar. (MOTTA e SILVA).

A importância desse raciocínio nos leva ao estudo da correlação entre as parasitoses e a deficiência da vitamina A que assume particular importância nas grandes áreas endêmicas que se concentram em regiões tropicais, onde, concomitantemente, é alta a prevalência da má nutrição. (SOUZA e VILLAS BOAS).

Vale lembrar que alguns estudos foram realizados para avaliar os efeitos da vitamina A sobre infecções parasitárias em seres humanos na cidade do México, onde a suplementação dessa vitamina veio reduzir significativamente a re-infecção por Áscaris lumbricóides em crianças. (LONG et al).

Enfatiza-se que a luta contra as parasitoses nas populações mal nutridas tem sido ineficaz quando o tratamento específico não é aliado a medidas que visem, em última instância, a melhoria das condições de vida das populações. (Souza et al).

Como já se sabe, as ações de Vigilância Epidemiológica estão baseadas no Sanitarismo Campanhista, vertente que fundamentou as ações do projeto de intervenção da saúde pública, primeiro modelo adotado na saúde brasileira.

Sendo assim, ainda que dirigidas as ações de saúde á coletividade, reitera-se que estas acabam por não modificar os desencadeantes o que se constitui como uma das possibilidades explicativas para o cenário epidemiológico brasileiro que o Brasil tem presenciado que já deveria ter sido alvo de controle como a tuberculose, hanseníase, dengue, malária entre outras enfermidades que acometem na grande maioria das vezes os grupos sociais marginalizados. (BERTOLOZZI e FRACOLLI).

Nessa percepção no Brasil, a magnitude do problema ainda é pouco conhecida e as informações a respeito do impacto social causado pela hipovita minose A, são escassas em termos de óbitos e incapacitações. O conjunto de dados existentes é ainda limitado para o tamanho e diversidade da população brasileira e alguns resultados, inclusive, são contraditórios. (SUCUPIRA e ZUCCOLOTT). 

Vale apontar que os inquéritos dietéticos muitas vezes não estão de acordo com os indicadores bioquímicos e ambos frequentemente não coincidem com os resultados dos estudos clínicos, no entanto em alguns casos, o hospedeiro pode não apresentar todos os sinais de infecção pelo parasita. (NEUMANN). 

O direito à saúde, instituído na Constituição Federal transcende as fronteiras da atenção à saúde. O sistema sanitário é necessário, porém insuficiente para garantir níveis adequados de saúde para toda a população. Nesse contexto a própria Constituição Federal assume o conceito ampliado de saúde quando se afirma que o direito à saúde deve ser “garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e aos serviços para sua promoção, proteção e recuperação” (BRASIL).

Espera-se que o Pacto pela Redução da mortalidade Infantil, possa garantir a Qualificação da Atenção ao Pré-Natal, Parto e Recém-Nascido. Garante também a  suplementação de sulfato ferroso para todas as crianças até 18 meses de idade e gestantes, bem como a suplementação de vitamina A para crianças e mulheres no pós-parto das regiões Norte e Nordeste”(BRASIL).

Contribuiu com este Artigo:





Enf. Prof. Ms. Dra. Maria Lucia Moura
Especialista em Docencia do Ensino Superior;
Especialista em Gestão no Programa Saúde da Familia;
Especialista em Enfermagem do Trabalho.

REFERÊNCIAS 

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